Acontecimento Histórico

A Revolução de 1910 e a expulsão das ordens religiosas

A laicização do Estado foi um dos principais objetivos do regime instaurado pela Revolução de 5 de outubro de 1910. O Governo Provisório, presidido por Teófilo Braga, com Afonso Costa como Ministro da Justiça e dos Cultos, procurou, de imediato, reduzir a influência da Igreja Católica na sociedade portuguesa, através de leis que retomavam diplomas relativos à expulsão dos jesuítas e à extinção das ordens religiosas. (AR – História do Parlamentarismo)

No dia 8 de outubro de 1910, o governo implementou a legislação pombalina de 1759 e de 1767 sobre a expulsão dos jesuítas, bem como a legislação de 28 de maio de 1834 que extinguia as casas religiosas e todas as ordens regulares, razão pela qual Joaquim António de Aguiar ficou conhecido por mata-frades.

Impacto da Revolução
no Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria

A revolução obrigou as RSCM das comunidades existentes – Porto, Braga, Viseu e Penafiel – a secularizar-se, a fechar as suas escolas, a deixar os conventos e a regressar às suas famílias, a abandonar o país ou a viver secretamente, em grupos de três ou menos irmãs.

As superioras das comunidades já vinham, há algum tempo, a preparar estas mudanças. Em 1901 reuniram-se em Braga com uma delegada da Casa Mãe – a Madre St. Calliste Hughes – para elaborarem planos para essa eventualidade. No dia 4 de outubro de 1910 num outro encontro no Porto, com a provincial, para organizarem a dispersão segura das irmãs.

As religiosas que tinham família no Porto e arredores, refugiaram-se nas famílias; as de longe foram partindo em grupos, para, na estação de S. Bento, tomarem o comboio para as suas terras; outras regressaram às comunidades de origem, fora de Portugal, aguardando novas instruções. Cada uma improvisava a sua “toilette” conforme podia. Foi difícil arranjar disfarce para todas, mas, sobretudo, para as que já tinham longos anos de vida religiosa! Nem assim escaparam aos insultos da população que corria pelas ruas e assaltava as estações em desenfreada caça aos padres e às freiras.

As alunas e outros amigos ajudaram as religiosas a levar e a esconder preciosas recordações em suas próprias casas, esperando um eventual regresso.

José Bernardo Carlos das Neves e sua esposa Dª Adelaide de Carvalho Neves tinham quatro filhas religiosas do Sagrado Coração de Maria, facto que lhe valeu vários dissabores: teve ordem de prisão e foi sujeito a interrogatórios no Governo Civil. Quando o conduziram a casa sob a guarda de polícias e com escolta republicana, perguntou:

  • Diga-me, Sr Doutor, o decreto proíbe que estejam mais de três religiosas a viver na mesma casa. Ora, eu tenho quatro filhas freiras! O que hei-de fazer à quarta? Não a posso pôr na rua!

O consulado britânico conseguiu que as irmãs irlandesas regressassem ao seu país num cargueiro atracado no Douro. Outras aceitaram o convite da Madre Marie Joseph Butler e viajaram para Tarrytown – Nova Iorque. Outras, ainda, atravessaram a fronteira, entrando em Espanha, onde reiniciaram a vida em comunidade.

Como a comunicação com a Casa Mãe era quase impossível, a Madre Maria da Eucaristia viajou duas vezes até Béziers. Em finais de 1910, para descrever, pessoalmente, à Madre Ste. Constance – superiora geral – a perseguição à Igreja em Portugal, a dispersão das RSCM e o colapso da Província Portuguesa. A única coisa que ela podia fazer era manter-se em comunicação com as irmãs e animá-las a permanecerem fiéis ao espírito do Instituto.

O exílio imposto às religiosas foi um meio de se realizarem novas fundações noutros países.

TUI – Refúgio e Oportunidade

No dia 5 de abril de 1911 a Madre Maria da Eucaristia, a Madre Maria de Néri Barreto, a Madre Crucifixo Oliva e a Irmã Ambrosina chegaram a Tui. Ao entrarem em casa depararam-se com uma cena que as comoveu: umas senhoras amigas enchiam de palha quatro enxergas para as recém chegadas. Se às enxergas acrescentarmos uma cama e uma cadeira, teremos o inventário completo do mobiliário da casa. Eram as malas que serviam de banco, de mesa ou de secretária, conforme a necessidade de momento.

Em breve se juntaram ao grupo mais de quarenta irmãs idosas e doentes que, não cabendo todas na primeira casa ficaram a viver num edifício anexo. Como os escassos recursos não davam para comprar mais camas, ditavam-se sobre a palha e cobriam-se com os poucos cobertores que havia. Para cozinhar iam ao monte apanhar gravetos, pinhas e caruma. De vez em quando compravam alguma lenha. Era uma festa em casa! Com esses cepos, cada uma improvisava um banco para se sentar. O pior era quando a lenha acabava e os bancos se iam consumindo no lume, desaparecendo toda a mobília.

O Bispo de Tui não permitia que os religiosos exilados usassem hábitos porque não queria que as autoridades espanholas soubessem quantos religiosos e religiosas de Portugal se tinham refugiado em Tui – calcula-se que dezasseis comunidades religiosas masculinas e vinte e oito femininas se estabeleceram em Tui aquando da Revolução de 1910.

Pior que esta privações era a falta de trabalho. Habituadas a levar uma vida muito ocupada em colégios cheios de movimento, pesava-lhes a inatividade imposta pelas circunstâncias.

A Madre Maria de Chantal, que conhecia muitas das religiosas dessa fundação, comentou que, inicialmente, as RSCM pareciam sofrer sobretudo de um sentimento de ociosidade forçada; tinham-se acostumado a vidas afadigadas em escolas cheias de vitalidade. Agora, “…a inatividade que lhes fora imposta pelas circunstâncias presentes era muito difícil de suportar”.

Quando se soube que as Religiosas do Sagrado Coração de Maria estavam perto da fronteira, os pais das antigas alunas começaram a pedir que se abrisse ali um Colégio. Mudaram para uma casa mais espaçosa – a Calle del Obispo Lago – à beira rio, com vistas para Portugal, o que lhes dava a ilusão de estarem a viver no seu país.

Em 1912 abriram o colégio e tiveram a alegria de o ver encher-se rapidamente – só as alunas internas eram mais de sessenta, por isso, alugaram outras casas nas imediações. Tinham salas de aulas, refeitório e capela numa casa e os dormitórios nas outras.  Os estudos estavam, quanto possível, organizados segundo o plano que adotavam em Portugal, antes da república. Quando a notícia da abertura do colégio chegou a Braga, Porto e Viseu, muitas das ex-alunas atravessaram a fronteira para assistirem às aulas. No final de cada ano letivo, regressavam a Portugal para fazerem exame no seu país.

Como a revolução continuava, muitos leigos, privados dos sacramentos e da orientação espiritual dos religiosos e sacerdotes no exilio, vieram refugiar-se em Tui. A Madre Maria da Eucaristia iniciou os retiros para senhoras leigas que a Madre Maria Joseph Butler e ela própria tinham lançado, como pioneiras, em Braga. Não era difícil encontrar jesuítas, exilados nas proximidades, para pregar esses retiros que tinham lugar no colégio, depois das alunas terem regressado a Portugal, para as férias de verão.

Mesmo no exílio, surgiam muitas vocações para o Instituto. Em 1917 a Madre Maria da Eucaristia abriu um noviciado em Tui, com cinco postulantes e nomeou como Mestra a Madre Ste Agnès de Jesus Soares Teixeira. A 8 de dezembro do mesmo ano, entraram mais quatro postulantes, incluindo a futura Madre Maria de Chantal Carvalhaes.

Muitas das irmãs idosas e doentes morreram em Espanha, onde foram sepultadas no cemitério da cidade. A Madre Maria de Chantal escreveu: “… o seu holocausto, oferecido em resgate pela sua pátria amada, deve certamente ter acelerado a regeneração de Portugal”.

Faz-te ao largo

Foram três as superioras que, alternadamente, dirigiram o “Colégio Inglês” de Braga, desde a sua fundação até ao advento da República. Em dada altura, cada uma delas, ouviu um convite semelhante ao que Jesus fez a Simão Pedro: “Faz-te ao largo e lança as redes para a pesca!”

A primeira a sair de Portugal foi a Madre Maria José Butler que, em 1903, viajou para o outro lado do Atlântico. E que abundante pesca a sua! Até a “rede se rompia” e teve de pedir “que a viessem ajudar”. Partiram irmãs de França, de Portugal, da Inglaterra e da Irlanda.

Abriu um noviciado perto de Nova Iorque com duas postulantes americanas, sendo uma delas a futura Madre Maria Xavier Twomey, mais tarde, provincial em Portugal promovendo a restauração da província depois de 1920.

Em 1907 foi a vez da Madre S. Liguório Mac-Mullen atravessar a Espanha e os Pirenéus, passando de Béziers à Inglaterra e, depois, novamente a França onde passou 29 anos.

FUNDAÇÃO NO BRASIL

Para levar a Madre Maria de Aquino a “lançar as redes ao largo”, Deus serviu-se da Revolução Republicana de 1910.

Em fevereiro de 1911, a Madre Maria da Eucaristia visitou a Casa Mãe acompanhada pela Madre Maria de Aquino Ribeiro, que sentira um forte chamamento de Deus para iniciar uma fundação no Brasil, onde as religiosas poderiam empenhar-se na missão e viver em comunidade.

Embora a Madre Ste. Constance – superiora geral – inicialmente tivesse hesitado temendo que a proposta fosse demasiado arriscada e o destino demasiado distante, sentiu que o pedido da Madre Maria de Aquino era tão claro, tão sincero e tão manifestamente proveniente do Espírito, que acabou por concordar.

No dia 21 de fevereiro de 1911 a Madre Maria da Eucaristia acompanhava a bordo do “Cap Vert” as três fundadoras da província do Brasil – Madre Maria de Aquino Ribeiro, Madre Maria de Assis Gomes da Fonseca e Madre Ste. Foy Gomes Conde. Algumas semanas depois embarcavam mais quatro religiosas para o Rio de Janeiro e, mais tarde, um grupo de dez.

Foram muitos os obstáculos e tribulações que tiveram de superar. A Madre Maria de Aquino dizia: “Na República e primeiros anos no Brasil chorei tanto que se me secou a fonte das lágrimas. Agora posso suportar tudo, nem uma só me cai dos olhos.”

Os princípios foram muito difíceis “o primeiro convento, em Sete Lagoas, reduzia-se a três pequenas divisões onde chegaram a viver dezassete religiosas… nem mesmo o tormento da fome as poupou nesses primeiros meses de exílio, não obstante o Brasil ser muito hospitaleiro”

Após várias tentativas fixaram-se no Rio de Janeiro e em Ubá (Minas Gerais).

Em 1919 a Madre Maria de Aquino voltou à Europa para o Capítulo Geral e regressou ao Brasil acompanhada pela Madre Inês de Jesus Soares Teixeira que iria ser superiora da comunidade do Rio de Janeiro.

Biografias das Irmãs