Homenagem a Fervença

“Fazemos memória da presença do IRSCM em Fervença, no Concelho de Celorico de Basto (1972-1983):
o Centro Social e outras respostas associadas.
A presença da Comunidade RSCM neste contexto teve um impacto decisivo na formação e transformação de muitas pessoas, famílias e meio envolvente.”

Foto de Celorico da Basto

Singela homenagem ao Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria pelo seu centésimo quinquagésimo aniversário em Portugal.

Ao ser celebrados neste ano de 2021, os 150 anos do Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria em Portugal, não podemos ficar indiferentes ao trabalho desenvolvido por esta secular instituição, junto de várias comunidades, principalmente nas mais desfavorecidas. 

A história desta prestigiada instituição em Portugal é de tal grandeza, que merece o nosso mais profundo respeito e admiração. Os resultados da sua ação, em áreas tão vastas como Educação, Apoio Social, Apoio Religioso entre outras, falam por si.

Ao ser comemorada esta efeméride tão importante, quero apenas, contribuir com o meu modesto testemunho sobre a passagem das Religiosas do Instituto do Sagrado Coração de Maria, por Fervença Celorico de Basto.

Decorria o ano de 1972, quando a Saudosa Irmã Isabel de Lurdes, natural desta freguesia de Fervença, acompanhada de um grupo de religiosas, chegaram a esta terra, para o cumprimento de mais uma missão nas suas vidas.

O horizonte dos jovens desta freguesia, nos anos 70, era muito limitado. O futuro profissional passaria pela agricultura, com as dificuldades inerentes dessa época, construção civil, ou emigração. Ainda como agravante; o espetro da guerra do Ultramar.

Com a chegada deste grupo de Irmãs, o modo de vida desta modesta aldeia, sofreu uma alteração extraordinária.

Iniciaram a sua ação, promovendo convívios, principalmente entre jovens, vividos intensamente, onde eram motivados a interagir com a comunidade, inserindo-os desta forma, nas várias atividades que viriam a ser implementadas, com vista ao desenvolvimento humano, social e cultural desta freguesia. Com o caráter pedagógico aplicado nestes convívios, os resultados foram surpreendentes.

A integração foi muito rápida. A formação e experiência das Irmãs, aliadas ao grande amor ao próximo, foram elementos fundamentais, para criar uma empatia tal, que ainda hoje perdura, apesar de decorridas mais de quatro décadas.

Nesse mesmo ano, nas instalações onde residiam, (casa da Renda) propriedade da família da Irmã Isabel de Lurdes, foram criadas várias valências, que mudariam radicalmente a vida de muitos jovens: Ensino noturno, Jardim de Infância, costura e bordados entre outras.

Assim começava um percurso de vida para vários jovens, que a partir dessa altura lhes foi dado o direito de sonharem com uma vida melhor, proporcionado pelas valências implementadas, principalmente pelo ensino. Neste particular, para os jovens que o frequentaram, foi o concretizar dum sonho que doutra forma não seria materializado. Todos eles tiveram sucesso na vida, tendo uma grande percentagem concluído o ensino superior. Não fosse o empenho dedicação e espírito de servir das Irmãs que compunham o corpo docente, nada disto seria possível. Por isso a minha homenagem às Irmãs: Isabel de Lurdes, Irmã Conceição, Irmã Maria de Jesus, Irmã Alice entre outras, das quais não me recordo do nome, pelo que peço desculpa por este lapso.

Desse grupo de alunos fazia parte, a hoje, Irmã Luísa Marinho, deste Instituto, e natural desta freguesia, que atualmente, com o seu saber, dedicação e empenho, muito tem contribuído para a dinamização, a vários níveis, da paróquia de Fervença, muitas vezes com sacrifício do seu merecido descanso. Esta comunidade está-lhe grata por isso.

Votos perpétuos, Ir. Luiza Marinho, em 04/07/1993

Recordar também a ação importantíssima que tiveram na vida paroquial: dinamização do grupo coral, ensino de música vocacionada para a liturgia, ensino da catequese e apoio em todas as atividades da paróquia. Relativamente ao grupo coral, ainda existem presentemente, elementos que nele permanecem ativos, desde essa época.

Igreja de Fervença

Os valores transmitidos, principalmente aos jovens, pelas Religiosas do Instituto do Sagrado Coração de Maria, perduram no tempo. Ainda hoje são vividos intrinsecamente, quer pelos jovens dessa época, quer pelos seus filhos, a quem legaram esses valores, e estes os legarão aos filhos deles, criando uma corrente que se vai manter através dos tempos.

Em 1983, depois da missão cumprida, outras missões as esperavam noutras comunidades. As irmãs partiram deixando um legado imensurável. Continuamos a comungar e partilhar os valores e ensinamentos que por elas foram deixados, recordando com saudade a sua passagem indelével por esta freguesia, com um sentimento enorme de GRATIDÃO.

José Moreira da Costa

Uma década de vida que fez história!

No âmbito das comemorações dos 150 anos das Religiosas do Sagrado Coração de Maria em Portugal fomos convidadas pela Irmã Luísa Marinho a partilhar o nosso testemunho sobre a influência que as Irmãs tiveram nas nossas vidas no início do nosso percurso académico e profissional, bem como no progresso e desenvolvimento da freguesia de Fervença – Celorico de Basto, da qual somos naturais.

Sem dúvida que as Irmãs do Sagrado Coração de Maria foram e são inovadoras,corajosas, visionárias, sempre à frente no tempo.

Comparando a mensagem do Pe. Jean Gailhac, seu fundador, que diz que «A transformação não se opera com palavras vãs, são precisos atos, ações!» à mensagem atual do  Papa Francisco que convida a evangelizar periferias sem excluir ninguém, verificamos que a única diferença é temporal, uma foi dita há muito tempo e a outra nos nossos dias, porque a mensagem destes dois grandes homens é a mesma, fazer caminho e caminhar, caminhar em direção aos mais pobres, aos mais necessitados, aos mais desfavorecidos…

Foi com este espírito e este propósito que em 1972 as Irmãs do Sagrado Coração de Maria chegaram a Fervença, terra marcada por uma profunda ruralidade, sem luz elétrica, sem água canalizada, sem grandes recursos e meios de comunicação.

O primeiro grupo de crianças a frequentar o jardim de infância, em 1972/1973

Era então uma aldeia pacata de gente simples, mas de grande caráter e sentido de respeito pelo próximo. Os meios eram poucos e as oportunidades escassas. As pessoas viviam do trabalho árduo da agricultura, sendo este o sustento da maioria da população.

Os recursos socioculturais e recreativos reduziam-se a uma casa do povo, duas escolas primárias e uma igreja, onde todos os domingos as pessoas se reuniam para ir à missa e celebrar o dia do Senhor, servindo também como ponto de encontro entre famílias da freguesia.

Foi com grande expectativa e muito entusiasmo que esta comunidade acolheu as Irmãs do Sagrado Coração de Maria e o seu projeto de esperança e de amor ao próximo.

As áreas de intervenção foram variadas e transversais, e incidiram principalmente na educação e formação das crianças e jovens.

E foi assim que a pequenada teve a oportunidade de frequentar um jardim de infância, os jovens adolescentes a telescola, o correspondente ao atual segundo ciclo, e finalmente, e não menos importante, o atendimento aos jovens adultos a quem foi dada a oportunidade de frequentarem uma oficina de bordados/corte e costura. Além de tudo isto, ainda dinamizaram as atividades religiosas da paróquia, nomeadamente a catequese e o grupo coral.

De início, algumas pessoas tiveram algumas dificuldades em aderir a estas iniciativas, mas lentamente lá se foram deixando seduzir pela generosidade e entrega das primeiras Irmãs que abraçaram esta causa.

A alvorada da mudança tinha realmente chegado e, em pouco mais de uma década, fez-se da esperança um lugar de transformação.

E foi assim que, aquela geração que teve o privilégio de crescer e evoluir na companhia das Irmãs do Sagrado Coração de Maria, teve também a responsabilidade de fazer a diferença e ser caminho na mudança desta pequena comunidade.

Alguns pais, por razões variadas, tiveram dificuldades em deixar os seus filhos criar asas e voarem, outros viram uma oportunidade para os seus filhos terem um futuro melhor e simplesmente não lhes dificultaram o voo. Foi o caso dos nossos pais que confiaram e, por isso, hoje, é com muito orgulho que podemos dizer o quanto estamos gratos a todos pelos ensinamentos e ajuda que foram determinantes nos nossos percursos profissionais e pessoais. Com a ajuda preciosa destas pessoas que nos rodearam e a nossa força e persistência conseguimos ter um futuro melhor e mais próspero. Obrigado às Irmãs pelas oportunidades que nos proporcionaram e obrigado aos nossos pais por nos deixarem voar.

O nosso núcleo familiar era constituído por oito pessoas, os pais, que já faleceram, e seis filhos.  Os nossos percursos de vida foram sem dúvida influenciados e as aprendizagens adquiridas, determinantes no rumo das nossas vidas.

A Conceição recorda com muita saudade as Irmãs, principalmente a Irmã Maria de Jesus, por quem sempre nutriu um carinho muito especial e com quem lidou mais de perto na arte de bem bordar e costurar e é hoje com muito sucesso que desempenha no seu trabalho esta arte, que tão bem sabe fazer. Foram três anos de crescimento pessoal enquanto ser humano e de aprendizagens significativas que permitiram a sua independência profissional e financeira.

Recorda ainda com muita nostalgia os passeios que fizeram, as gargalhadas que deram os almoços partilhados, as reflexões e celebrações eucarísticas e acrescenta que foram talvez os melhores anos da sua vida.

Agradece a todas as Irmãs que se cruzaram no seu caminho e a importância que tiveram na sua vida, em especial à Irmã Maria de Jesus que apesar de já não estar entre nós terá para sempre um lugar muito especial no seu coração.

A Laurinda e a Pureza, que após frequentarem o ensino à distância (Telescola) e presencial com a ajuda e o apoio da Irmã Maria Alice Morgadinho, seguiram os estudos no lar em Braga, também, com a ajuda e o apoio das Irmãs, hoje exercem a função nobre de ensinar, a Laurinda como Professora do 1º CEB e a Pureza como Educadora de Infância.

A Irmã Maria Alice Morgadinha foi realmente uma pessoa que definitivamente marcou de um modo muito especial as suas vidas e será sempre lembrada como alguém que cativou, deu colo e apontou caminhos.

Finalmente falamos do Carlos e do Dinis, os irmãos mais novos que frequentaram o Jardim de Infância onde fizeram as suas primeiras aprendizagens e hoje com estabilidade e equilíbrio, vivem de bem com a vida.

É com muita alegria que recordamos as festas com as representações teatrais que a pequenada fazia. Os cenários, adereços e coreografias eram pensados pelas Irmãs ao pormenor.  O Dinis e muitos dos outros petizes representaram e encantaram como ninguém aquele público simples, mas ávido de conhecimento e de novidade.

Falamos da nossa experiência pessoal, mas lembramos e agradecemos tudo o que com coragem, entrega e muita determinação foi feito pela comunidade de Fervença.

A todas as Irmãs que integraram este projeto, o nosso muito OBRIGADO!

Laurinda Lemos e Pureza Lemos