Acontecimento Histórico

Madre Sainte Croix – mulher atenta aos sinais

Na primavera de 1875, a Madre Sainte Croix passou quase três meses em Portugal, visitando, pela primeira vez, a fundação do Porto. Esta visita pode ser reconstituída através de oito longas cartas enviadas ao Pe. Gailhac, à M. St. Charles e à M. St. Félix.

A correspondência revela o conhecimento profundo que a M. Ste. Croix tinha da comunidade, da escola antiga e das qualidades pessoais e comunitárias consideradas essenciais para a vida religiosa.

Consciente da importância e significado desta missão, rapidamente se familiarizou com o contexto: foi ao encontro das alunas, dos professores, percorreu o edifício e a propriedade, que descrevia, em pormenor, na correspondência com o Pe. Gailhac. Escutou, acolheu, interessou-se pelas pessoas, pelas diferentes situações com que se deparou, procurou dar resposta e renovar o espírito de missão da comunidade fundadora.

Embora muito interessada nas condições da escola, o foco da sua visita foi, de facto, a comunidade – as irmãs e a sua missão. Ao escutá-las, tentou captar os pontos fortes e fracos de cada uma das religiosas, com o objetivo de renovar o fervor primitivo. Interessou-se pelos progressos de cada uma, passou muito tempo a interpelar os membros da comunidade à luz da verdade e a estimulá-las a corrigir as suas fragilidades. Observou o trabalho de cada uma e fez alguns ajustes porque havia irmãs muito sobrecarregadas.

Verificou que a comunidade tinha poucos recursos espirituais – ainda não conseguira ter o Santíssimo em casa – e deu passos para obter essa licença da parte das autoridades eclesiásticas.

As irmãs correspondiam positivamente e a M. St. Croix consolava Gailhac com estas boas notícias.

A 30 de maio de 1875 escreveu ao fundador, dizendo que a falta de pessoas para o trabalho podia ser aliviada, pois “duas simpáticas jovens chegaram como postulantes”. Tinha-se tornado habitual receber candidatas nas comunidades locais, acompanhá-las durante algum tempo, para evitar viagens desnecessárias para Béziers, a pessoas não aptas para a vida religiosa. Em 21 de janeiro de 1878, em Béziers, tomaram o hábito três irmãs portuguesas: a Ir. St Zoé (Maria Pedro da Silva), a Ir. Ste. Leocadie (Florinda Moreira) e Ste. Sylvie (Ermelinda Araújo Pereira).

Há, ainda, outro acontecimento relativo à necessidade de ajuda sentida pela comunidade do Porto. Logo que a M St. Croix chegou a esta cidade, encontrou uma “postulante” que parece ter vivido algum tempo com a comunidade. Descreveu-a como “uma menina boa e que se tornara muito útil”, mas era filha ilegítima. Segundo as normas da Igreja, era impossível ser admitida como religiosa.

A M. Ste. Croix, escutando estes sinais, propôs ao Pe. Gailhac uma “nova modalidade vocacional” – as “Dame Auxiliatrice” – uma espécie de ordem terceira: “dada a situação política do país, esta modalidade poderia ser uma grande ajuda para as classes de ricos e pobres, para o catecismo ao domingo, … uma vez que as religiosas são obrigadas a permanecer ocultas”. A M. Ste. Croix estava convencida de que era um dom de Deus, “quase indispensável”, num país onde as religiosas não podiam aparecer em público. Explicou ao Pe. Gailhac que esta “postulante” poderia usar os seus dons e ser de maior ajuda à comunidade.

Gailhac respondeu afirmativamente à sugestão, mas pôs condições rigorosas e muito precisas. A resposta do fundador não correspondeu ao novo tipo de associação previsto pela M. Ste. Croix, mas esta não insistiu no seu ponto de vista e agradeceu a resposta assegurando-lhe: “Fico contente com as suas propostas … a jovem candidata ilegítima, que aqui temos, reúne todas as qualidades requeridas”. (M. Ste. Croix a Gailhac 19/05/1875)

Não se sabe até que ponto esta nova associação floresceu na família RSCM; sabe-se que existiram apenas em Portugal como resposta a uma necessidade concreta e particular, que tiveram uma existência breve e que incluía também professoras” (1876). A M. Ste. Thomas foi a responsável pela sua formação.

Madre Saint Croix – 2.ª Superiora Geral do IRSCM, eleita oficialmente a 3 de maio de 1869

Convite para uma nova fundação

No meio da renovação em curso na comunidade do Porto, a M. Ste. Croix entusiasmou-se com outra fundação em Portugal.

Margaret Hennessy tinha informado, várias vezes, a Casa Mãe de que um sacerdote de Braga – Pe. Luiz Maria Ramon – mostrara interesse em ter RSCM nessa cidade.

Entretanto, o sacerdote em causa foi nomeado professor de Teologia no seminário de Coimbra e saiu de Braga. Mesmo assim, a M. Ste. Croix escreveu-lhe perguntando se, apesar da sua transferência, as religiosas seriam bem acolhidas na cidade e dispôs-se a ir a Braga para fazer os preparativos preliminares para a fundação.

A M. Ste. Croix informou o Pe. Gailhac, dizendo: “Há aqui, em Portugal, imenso bem a fazer, até mais do que em Inglaterra” e assegurou-lhe que não tomaria qualquer compromisso em Braga, que iria, apenas, examinar a zona e confirmar os interesses da comunidade.

O Padre Ramon respondeu de imediato, dizendo que o projeto devia avançar e prometeu ajuda. Comprometeu-se a falar com o Bispo – D. João Crisóstomo de Amorim Pessoa – durante as festas do S. João, a 24 de junho. Estava convencido de que Deus iria abençoar esta obra e afirmava que uma instituição para a educação de meninas era uma necessidade a que ninguém dava resposta. O padre dispôs-se, a caminho de Braga, parar no Porto e encontrar-se com a M. Ste. Croix para começarem a projetar as primeiras fases da fundação.

A M. M. Ste. Croix acolhia estes acontecimentos, procurava escutar os apelos de Deus e estava ansiosa por aproveitar esta oportunidade de fundação em Braga. Ainda antes de saber a resposta de Gailhac, começou a imaginar como poderiam preparar a nova fundação e a pensar nas irmãs a enviar.

O Pe. Gailhac foi mais cauteloso: “relativamente à fundação de que fala, faça tudo com prudência e não esqueça a nossa extrema pobreza, em todo o sentido”. A M. Ste. Croix tranquilizou-o, dizendo que faria o menos possível até poder submeter tudo à sua apreciação.

Em fins de junho de 1875, quase a terminar a sua visita de três meses ao Porto, a M. Ste. Croix escreveu a última carta ao Pe. Gailhac (24 de junho). Nela, fazia referência ao pequeno retiro que iria dar, a 28 de junho, como preparação para a cerimónia da primeira comunhão. Esperava, logo em seguida, ir para Lisboa onde tomaria o barco para França no dia 2 de julho. Não podia dizer quando iria chegar a Béziers porque, devido à epidemia da febre amarela no Brasil, os passageiros embarcados em Portugal eram retidos e isolados em Bordeaux durante alguns dias.

Embarcou rumo a Béziers, sem imaginar que nunca mais viria a Portugal.

A 25 de setembro de 1891, a autora do Journal da la Maison do Porto recorda a visita da M. Ste. Croix: “devo dizer que, durante todo o tempo em que esteve na casa do Porto, ela se sacrificou sempre pelo bem da comunidade, com ternura comovente de uma mãe”.

Kathleen Connel, RSCM – Uma Caminhada na Fé e no Tempo – História das RSCM, Vol. II