Acontecimento Histórico

Margaret Hennessy

Através da correspondência da M. Ste Croix, podemos verificar a persistência de Margaret Hennessy em convidar as RSCM para virem para Portugal. Ela conhecia o país, a língua, a política e o seu povo. Era ela que, frequentemente, iniciava os projetos, assumidos depois pelas RSCM. O seu desejo de estar para todas as classes da sociedade refletia a missão do Instituto.

Em 1875, a M. St Thomas e a comunidade sentiram que era tempo de começar a atender às necessidades de todas as classes da sociedade e pediram a Margaret que usasse da sua boa reputação, em Portugal, para arranjar fundos e se abrir uma escola para os mais pobres. As RSCM achavam que a sua ação não estava completa, enquanto não pudessem oferecer aos pobres as suas obras de zelo.

A 13 de maio de 1875, enquanto a M. Ste Croix se encontrava, ainda, em Portugal, Margaret foi a Lisboa procurar donativos para a compra de uma casa no Porto onde pudesse educar, gratuitamente, crianças pobres. Possivelmente, tinha na capital amigos importantes que a estimavam e contribuíram para o sucesso deste projeto. Chegou mesmo a escrever para o Brasil a pedir ajuda financeira. Decidiu, também, interessar pela sua escola, o cônsul francês em Lisboa. Nesse sentido, solicitou à M. Ste Croix uma carta de apresentação para o cônsul.

Um artigo saído num jornal de Lisboa, descreve os objetivos de Margaret Hennessy dizendo que, ao viajar para França, visitara um estabelecimento de ensino, segundo o qual desejava moldar o seu próprio projeto, pois reconhecia o bem que aquele fazia em favor das crianças pobres e, também, de outras meninas das classes mais elevadas. As crianças pobres recebiam uma sólida educação cristã e, de acordo com a sua posição na vida, eram formadas no amor ao trabalho para virem a tornar-se úteis à sociedade. Aquela instituição protegia, também, crianças órfãs, bem como jovens que, de outro modo, poderiam ficar expostas a muitos perigos. O artigo terminava com um apelo à doação de fundos para comprar uma casa com idêntica finalidade, em Portugal.

O estabelecimento francês, referido no artigo do jornal e, segundo o qual desejavam moldar a escola para os pobres, era o Orfanato / Preservação de Béziers. As obras da Casa Mãe deviam ser copiadas em Portugal. A Miss Hennessy era a voz dos membros da comunidade que, em vista das leis repressivas e antirreligiosas, deviam permanecer em silêncio aos olhos do público.

Em junho de 1877 Margaret escreveu à M. Ste Croix sobre o plano de abrir uma escola para a classe média, isto é, para quem não podia pagar muito pela sua educação:

Eu pensava consultar o Reverendo Padre Gailhac, mas como ele não vem, tenho de procurar uma casa… Acabo de ler um anúncio sobre uma casa para alugar e mandei saber informações. Note que isso não se fará com o seu dinheiro. Farei a experiência por um ano, com o que os alunos pagarem. Se for um sucesso, do que eu não duvido, passá-la-ei para o Instituto ou para quem a quiser aceitar das minhas mãos. Vou lá de hoje a quinze dias. Esta ideia tem crescido em mim desde os princípios de junho, por isso, penso dedicar a escola ao Sagrado Coração de Jesus”.

Depois da compra da propriedade do Porto, em 1879, iniciou-se, para a classe média, uma escola elementar, de baixas mensalidades e ligada à Academia Inglesa por uma passagem coberta. Foi, ainda, fundado no Porto um externato gratuito para crianças muito pobres, às quais se distribuía uma refeição diária e roupas. Quando pediram autorização a Gailhac sobre a abertura da escola para pobres, a resposta foi inequívoca: “Autorizo de todo o coração.”

Margaret Hennessy nunca foi membro do Instituto das RSCM como as suas duas irmãs. Nem parece ter-se associado à comunidade como dame auxiliatrice, apesar de tal opinião ter existido. Viveu com as religiosas da comunidade do Porto desde 1871 até à sua morte, em 9 de março de 1896 e está sepultada no jazigo da comunidade, no cemitério do Carmo, no Porto. Procurou sempre não interferir nos assuntos internos da comunidade. Pessoa independente, de energia e iniciativa sem limites, muitas vezes submetia as suas ideias e projetos ao Pe. Gailhac ou à M. Ste Croix, não para pedir licença, mas para ter a sua opinião e possível colaboração. Possuía as virtudes de fé e zelo, características das RSCM, em elevado grau e trabalhou, tão arduamente como as religiosas, para estender as obras da comunidade a todas as classes sociais. Colaborou intensamente com as RSCM entregando-se toda à sua missão em Portugal …de um lado e do outro, era comum a mesma visão apostólica.

Kathleen Connel, RSCM – Uma Caminhada na Fé e no Tempo – História das RSCM